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BRASIL, Sudeste, SAO PAULO, Homem, de 26 a 35 anos, Persian, English, Sexo, Dinheiro
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Caixa Preta
Obra-prima melhora com o tempo

Barry Lyndon (idem, 1975) Direção: Stanley Kubrick • com: Ryan O'Neal (Barry Lyndon/Redmond Barry), Marisa Berenson (Lady Lyndon), Patrick Magee (Chevalier de Balibari), Marie Kean (Belle), Murray Melvin (Reverend Runt), etc.
Se eu pudesse escolher 5 filmes para colocar num daqueles recipientes indestrutíveis que, dizem, são mandados para o espaço como registros da história humana, com certeza "Barry Lyndon" estaria na lista. Este trabalho de Stanley Kubrick, que sucedeu o polêmico "Laranja Mecânica", de 1971, não apenas registra algumas das mais belas imagens já captadas por uma câmera de cinema, como também sintetiza todos os sentimentos humanos e suas variações: medo, bravura, amizade, traição, ganância, tristeza, ódio, compaixão, etc. e etc.
Os detratores da obra de Kubrick sempre se servem do argumento que os filmes do diretor são indiferentes à emoção humana e seus personagens, desprovidos de sentimentos. Talvez se "Barry Lyndon" não fosse o mais subestimado trabalho do cineasta, essa crítica já teria caído por terra.
Baseado no romance de William Makepeace Tackeray, o filme resume bem a experiência humana que em "2001: Uma Odisséia no Espaço" foi substituída alegoricamente pela clássica sequência em que um osso transforma-se em nave espacial. Aquela lacuna no tempo, entre a Era do Fogo e a conquista do espaço, seria muito bem contada pela fábula de Redmond Barry.
Ingênuo rapaz irlandês do século XVIII descobre o amor, tem a primeira decepção, tenta lavar a honra com sangue, rompe o cordão umbilical com a família, descobre a guerra e o desrespeito à vida humana, sente a dor da solidão, incorpora o cinismo, esquece o amor, se embevece com o poder, vira adulto, sofre com a dor da perda e recomeça a vida. Essa absurda simplificação traz temas pertinentes às mais nobres disciplinas, mas Kubrick trata desses assuntos com a ferramenta que melhor conhece: a imagem.
Para contar essa bela parábola, o diretor lançou mão de todos os recursos técnicos imagináveis, tornando "Barry Lyndon" um espetáculo visual único. O resultado é tão impactante que parece que o filme foi de fato rodado em 1770!
Assim como o steadicam praticamente nasceu em "O Iluminado", a maneira de fotografar ambientes escuros foi radicalmente modificada em "Barry Lyndon". A pedido de Kubrick, o famoso fabricante de lentes Carl Zeiss criou uma lente especial que possibilitou ao diretor de fotografia John Alcott (vencedor do Oscar por esse trabalho) filmar cenas iluminadas apenas e tão somente pela luz de velas! Depois de "Barry Lyndon", fica difícil assistir a qualquer filme de época sem notar que aquele ambiente está sendo "fabricado" por luzes e efeitos. O brilho das imagens também é impressionante, especialmente quando se propõe a registrar algumas magníficas paisagens da Inglaterra. Certos fotogramas de "Barry Lyndon" parecem autênticos quadros impressionistas.
O roteiro, adaptado pelo próprio Kubrick, também traz mais explicações do que sua obra costuma fornecer ao espectador. Uma irônica narração em off nos acompanha desde o princípio, descrevendo as andanças e desventuras de Redmond Barry pela Europa. Os diálogos também são mais frequentes e menos herméticos do que em outros trabalhos do diretor (de novo, "O Iluminado" e "2001"). Essa narração e a divisão do filme em capítulos recebeu carinhosa homenagem de Lars Von Trier em "Dogville".
Stanley Kubrick foi um gênio não só por sua contribuição à memória visual do planeta, mas também por trabalhar para que sua arte fosse vista e saboreada por grandes platéias. Talvez seja a preocupação do diretor com o cárater comercial do filme que faça com que as quase 4 horas de duração de "Barry Lyndon" sejam palatáveis ao espectador comum.
É admirável que este homem que experimentou com quase todos os gêneros de cinema (noir, guerra, épico, comédia, terror, ficção científica e outros), tenha conseguido imprimir uma espécie de marca de autenticidade em cada um de seus filmes. "Barry Lyndon", por exemplo, tem, como de costume na obra kubrickiana, um personagem central oprimido, uso de música clássica, o indefectível zoom, planos e sequências silenciosas, entre outras marcas registradas. São grandes e pequenos detalhes que os apreciadores de Kubrick aprenderam a identificar com facilidade.
Se você é um dos muitos espectadores que não viu esta obra-prima por conta de seu colossal atraso (foram quase 20 anos até o lançamento em home video no Brasil!), não perca tempo e corra até a locadora mais próxima.
 Kubrick no set de filmagem de "Barry Lyndon"
Escrito por Mr Eddy às 05h10
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Zé Pequeno no Oscar...
Sem o poder da Globo, o oba-oba pelas 4 indicações de "Cidade de Deus" ao Oscar tem sido menor do que se supunha. A emissora de Silvio Santos bem que vem tentando conclamar o povão para torcer pelo filme como se fôssemos acompanhar uma partida da Seleção na Copa do Mundo, mas o interesse do público ainda é um mistério.
Quando "Quatrilho" foi indicado na categoria de Melhor Filme Estrangeiro (prêmio que ficou em boas mãos com o holandês "Karakter"), todo mundo foi pego de surpresa. Depois disso vieram as indicações de "O Que é Isso, Companheiro?" e "Central do Brasil" (este concorrendo a filme estrangeiro e atriz, mas com adversários de peso pela frente como, respectivamente, "A Vida é Bela" e Gwynet Paltrow). Resultado: nenhum prêmio foi conquistado e a busca pela estatueta dourada virou uma espécie de obsessão nacional. Cada novo sucesso brasileiro e alguém já ventilava a indicação a prêmios. O próprio "Cidade de Deus" foi submetido à apreciação da Academia no ano passado e terminou, talvez por seu conteúdo violento, sem qualquer indicação. A revista Veja publicou extensa matéria sobre a nova e bem-sucedida tentativa de botar o filme na briga pelo Oscar.
À parte do lobby monstro da Miramax, será que o filme disputará 4 prêmios por mérito próprio? A pergunta vai muito além de suas qualidades enquanto "produção brasileira". Tecnicamente impecável, "Cidade de Deus" é uma obra poderosa e que não deve ser comparada com qualquer outro recente sucesso de nosso cinema. O filme tem direção de fotografia primorosa - para mostrar a aridez do lugar, o segmento "anos 60" chega a ofuscar de tão dourado -, personagens fortes, roteiro excelente e é tão bem amarrado, que Daniel Rezende tem grande chances de ganhar uma estatueta (Melhor Edição) para sua estante.
O segredo da vitoriosa carreira internacional de "Cidade de Deus" é que, além de retrato orgânico da degeneração de uma sociedade, funciona como espetáculo e entretenimento. Conteúdo trágico à parte, a obra de Fernando Meirelles e Kátia Lund pode ser vendida como eficaz e sangrento thriller na linha de um "Scarface", de Brian DePalma. A fluência narrativa impressiona. Além do uso inteligente de flashbacks, há situações que são mostradas por mais de um ponto de vista e servem para ligar momentos no tempo e na trama.
De tão eficaz, o roteiro comporta um grande número de personagens e até aqueles que têm pouco tempo na tela deixam sua marca. É o caso de Paraíba, Alicate e Cabeleira. Nesse aspecto, "Cidade de Deus" tem ecos dos filmes de Paul Thomas Anderson ("Boogie Nights" e "Magnólia") e Quentin Tarantino ("Pulp Fiction" e "Jackie Brown"). Mais uma referência que vem à mente é "Amores Brutos", outro sangrento filme latino com câmera ágil e ritmo tenso.
Se em outras ocasiões a torcida pelo Oscar aconteceu muito mais à base do ufanismo, com "Cidade de Deus" a conversa é diferente. Eleito pela importante revista inglesa Uncut como melhor filme do ano e ocupando uma supreendente 48ª colocação no ranking de todos os tempos do maior site de cinema do mundo, us.imdb.com , "Cidade de Deus" é um fenômeno do qual, nós, brasileiros, talvez ainda não tenhamos a real dimensão.

Escrito por Mr Eddy às 01h24
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E o crossover acabou...
Crossover é um subgênero musical que surgiu em algum momento dos anos 80 e desapareceu sem ninguém perceber. A melhor tradução para o termo seria "cruzamento" e, nesse caso, entre hardcore e metal.
O crossover surgiu mais por necessidade do que por opção. A cena punk estava em baixa na segunda metade da década de 80, com bandas em quantidade insuficiente para substituir a geração que trouxe Dead Kennedys, Bad Brains, Black Flag, Minor Threat e outros. Uma declaração de Greg Graffin, vocalista do Bad Religion, publicada no livro "We Got the Neutron Bomb" resume bem o panorama da época: "Por volta de 1985-86, não havia mais bandas de punk rock na definição clássica. Havia pouquíssimos selos punk. Esse era o contexto da época e também uma das razões pelas quais o Bad Religion foi considerado revigorante quando lançou o álbum 'Suffer', em 1987. Na Alemanha, nos chamavam de salvadores da chama punk e tocávamos para platéias de 1000 pessoas, enquanto nos EUA, tínhamos sorte se conseguíssemos tocar num clube minúsculo de Orange County...".
O crossover, foi, mais do que uma experiência sonora, a tentativa de algumas bandas punk de se aproximar do público metal. Musicalmente, esse cruzamento só foi possível porque teve como fonte de referência, o thrash metal. Misturar punk com heavy tradicional teria sido, no mínimo, um desastre. Sem contar o fato que o hardcore e o metal underground tinham muito em comum no ponto em que os músicos faziam tudo por conta própria, excursionando em vans, tocando em espeluncas e dependendo da divulgação de fanzines ou programas de rádio especializados. O conteúdo das letras era a única grande diferença. Enquanto é intrínseco ao punk o interesse por temas sociais, o metal sempre esteve ligado à fantasia. Grupos como Sacred Reich, Vio-lence e Megadeth eram espécies raras com letras mais politizadas.
Não é fácil precisar qual foi o primeiro álbum de crossover. "Animosity", gravado em 1985 pelo Corrosion of Conformity, é com certeza um dos mais lembrados. Entre as várias outras bandas que embarcaram nesse estilo, merecem lembrança Suicidal Tendencies (a partir do disco "Join the Army"), Crumbsuckers, English Dogs, Agnostic Front, Gang Green e Cryptic Slaughter. Porém, foi o LP "Crossover" - gravado pelo D.R.I. em 1987 - que batizou definitivamente o gênero. A maioria das bandas citadas confirma a versão que o crossover surgiu dentro da cena hardcore. Foram as bandas desse estilo que incorporaram solos e riffs de guitarra tipicamente thrash. De tabela, deixaram os cabelos crescer e assinaram com gravadoras como Metal Blade e Combat.
Mesmo que o thrash tenha surgido originalmente da fusão entre a escola clássica de metal com a velocidade do hardcore (o próprio Metallica é um exemplo disso), a sonoridade e o visual das bandas crossover tiveram suas influências na cena metal. "Speak English or Die", do S.O.D., é uma das pedras fundamentais do estilo e foi invenção de integrantes do Nuclear Assault e Anthrax. Essas mesmas bandas mostrariam reflexos punk em discos como, respectivamente, "Among the Living" e "Game Over". Para não citar o M.O.D., do vocalista Billy Milano, que surgiu após sua participação no S.O.D.
Entre essa troca de influências, nasceram grupos tocando crossover "puro". Desde o irreverente Mucky Pup (principalmente em seus dois primeiros registros, "Can't You Take a Joke?" e "A Boy in a Man's World"), passando por Ludichrist e o ótimo Excel.
E por quê o crossover acabou? Talvez como reflexo direto do desaparecimento do thrash. O fato é que muitas daquelas bandas acabaram, outras foram ficando cada vez mais metal (como o Corrosion) e algumas voltaram a tocar hardcore old school, como D.R.I. e Agnostic Front.
Hoje em dia não faz muito sentido tentar recuperar e cruzar elementos desses dois estilos. O chatíssimo metal melódico ocupou o espaço do thrash e as bandas punk não precisam mais deixar o cabelo crescer. Versões de boutique como Good Charlotte e Blink 182 vendem milhões de discos sem precisar parecer ou soar metal. Enquanto isso, as bandas pesadas americanas fizeram o caminho oposto e, com uma cena comercialmente morta, foram buscar elementos do rap para dar origem ao nu-metal.
No fim das contas, são as circunstâncias, muito mais do que alguma opção musical, que fomentam a aparição desses subgêneros. Se a história se repetir, o nu-metal - que é infinitamente mais popular do que o crossover jamais foi - também sai de cena em pouco tempo. Difícil mesmo vai ser o Korn ou o Limp Bizkit gravarem coisas melhores que os álbuns listados abaixo...
Discografia básica do crossover
"Animosity" - Corrosion of Conformity (1985)
"Speak English or Die" - S.O.D. (1985) "Cause for Alarm" - Agnostic Front (1986) "The Age of Quarrel" - Cro-Mags (1986) "Crossover" - D.R.I (1987) "Join the Army" - Suicidal Tendencies (1987) "Immaculate Deception" - Ludichrist (1987) "Can't You Take a Joke?" - Mucky Pup (1987) "You Got It" - Gang Green (1987) "The Joke's On You" - Excel (1989)
 D.R.I. em 1988: visual clássico das bandas crossover
Escrito por Mr Eddy às 13h35
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Admirável Mundo Louco...

Quando a MTV Brasil começou a exibir Jackass em sua insossa programação, muita gente já conhecia a série graças ao canal por assinatura Multishow. Até mesmo nos shoppings de software pirata de São Paulo já era possível achar VCDs com episódios da série. Essa aura cult tem explicação. A trupe comandada por Johnny Knoxville é capaz de qualquer coisa para chocar ou arrancar algumas gargalhadas do espectador. Vale tudo: auto-flagelo, escatologia, pegadinhas de péssimo gosto e invenções mirabolantes (caiaque urbano ou luta de boxe sobre perna-de-pau, por exemplo). É mais do que apenas uma catarse no meio do humor baunilha da TV aberta. Jackass é entretenimento bizarro feito por caras que gostam de punk rock e cultura pop. Irresponsável, tosco e autêntico.
Dizem que a MTV americana suspendeu a série depois de inúmeras reclamações de pais, preocupados com seus filhotes que se jogavam do telhado ou enfiavam a cabeça no vaso sanitário. Enfim, no país onde um peito mezzo à mostra da já passada Janet Jackson causa mal estar nacional, Jackass dançou. Mas não sem antes pregar sua última e genial peça. O longa metragem "Jackass: the Movie" é uma coleção das maiores excentricidades e nojeiras que esses caras foram capazes de realizar. Produzido com o mesmo padrão da série de TV e um orçamento de 5 milhões de dólares, o longa também tem fotografia digital, os mesmos cortes, enquadramentos e títulos irônicos para cada segmento.
Nesse fim de semana, finalmente assisti à versão em DVD (importado e com 27 minutos de cenas excluídas). Ainda que algumas sequências excedam o limite do "aceitavelmente grotesco", ou talvez por isso mesmo, o filme é hilariante. O humor às vezes é meio tenso. Imagino as platéias americanas, onde o filme esteve por duas semanas no topo da bilheteria, dando risinhos nervosos quando um dos jackasses faz côco nas calças e o cameraman (que eles fazem questão de dizer que é vegetariano) vomita de nojo. Ou quem sabe na sequência seguinte, em que o mesmo doidão faz o mesmo truque, porém no vaso sanitário de um show room de material de construção! Repulsivo é pouco...
Várias sequências de "Jackass: the Movie" foram gravadas no Japão, pela facilidade em pegar as vítimas desprevinidas e também porque lá não existe lei que obrigue a ocultar o rosto dos participantes involuntários das "brincadeiras". A lista de situações absurdas é tão extensa, que não dá sequer para começar a descrever. E quando você acha que o filme acabou, entra o sensacional trailer para o (fictício, claro) "The Son of Jackass", onde Johnny Knoxville, Steve-O, Bam Margera, Party Boy e companhia aparecem maquiados como velhotes (uns de bengala, outros de andador), sob explosões hollywoodianas e a ópera "O Fortuna", de Carmina Burana!
Um dos produtores do longa metragem é Spike Jonze, videomaker que ficou conhecido pelos premiados clipes de "Losing My Religion", do REM e "Sabotage", dos Beastie Boys e que depois migrou para o cinema, dirigindo o intrigante "Quero Ser John Malkovich". Entre os convidados da insana turma, temos o lendário skatista Tony Hawk e o ex-Black Flag Henry Rollins. Na trilha, músicas do Minutemen, Misfits, Rezillos, Vapors, Slayer, Ramones, Black Flag e outros.
Já que é pra escrachar, vale a pena ir logo na fonte da doideira. "Jackass: The Movie" é humor mundano e uma ótima pedida pra rir sem culpa da desgraça alheia.

-- Para completar o fim de semana, a minha querida e sofrida Lusa venceu o Curinthians por 1 a 0. Pena que não foi gol impedido ou de mão... Mas aí seria mais engraçado que Jackass.
Escrito por Mr Eddy às 19h25
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